• Terça-feira, 2 Junho 2026

Ricardo Fernandes: da Amadora para o topo do mundo do kickboxing

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Natural da Amadora, onde viveu durante 21 anos, Ricardo Fernandes ainda hoje, é uma das maiores referências nacionais nos desportos de combate. Também conhecido como “Super-Homem”, frequentou a Escola Básica do Alto da Cova da Moura, seguindo-se a EB 2/3 Pedro D’Orey da Cunha e o ensino secundário na Escola Secundária D. João V. Construiu um percurso de excelência, com títulos internacionais como a Copa do Mundo WAKO e medalhas em campeonatos do Mundo e da Europa.

Após ter assinado pelo Sporting, Ricardo Fernandes continuou na senda dos grandes triunfos, destacando-se o facto histórico de, a 14 de novembro de 2014, no Campeonato do Mundo da WKF: disputou em Praga duas finais no mesmo dia, tendo-se sagrado Campeão do Mundo de kickboxing e conquistado a medalha de prata na vertente de Full Contact. Foi distinguido na Gala do Desporto da Amadora 2025,  com o Prémio Prestígio “Amadora Desporto”consolidando o seu reconhecimento dentro e fora do ringue.

- 𝐐𝐮𝐞 𝐦𝐚𝐢𝐨𝐫 𝐫𝐞𝐜𝐨𝐫𝐝𝐚𝐜̧𝐚̃𝐨 𝐠𝐮𝐚𝐫𝐝𝐚 𝐝𝐨𝐬 𝐬𝐞𝐮𝐬 𝐩𝐫𝐢𝐦𝐞𝐢𝐫𝐨𝐬 𝐩𝐚𝐬𝐬𝐨𝐬 𝐧𝐨 𝐤𝐢𝐜𝐤𝐛𝐨𝐱𝐢𝐧𝐠, 𝐞𝐧𝐪𝐮𝐚𝐧𝐭𝐨 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐦 𝐚𝐭𝐥𝐞𝐭𝐚 𝐧𝐚 𝐀𝐦𝐚𝐝𝐨𝐫𝐚 𝐞 𝐝𝐞 𝐪𝐮𝐞 𝐟𝐨𝐫𝐦𝐚 𝐞𝐬𝐬𝐚𝐬 𝐞𝐱𝐩𝐞𝐫𝐢𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚𝐬 𝐨 𝐢𝐧𝐟𝐥𝐮𝐞𝐧𝐜𝐢𝐚𝐫𝐚𝐦?

- Tenho uma história engraçada no Babilónia Gym. Morava na Cova da Moura. Eu vinha para aqui de comboio e depois ia para casa de comboio ou a pé. A minha mãe dava-me sempre dinheiro para o bilhete, mas eu às vezes tinha fome, comia um bolo e depois não tinha dinheiro. E muitas vezes, ia a pé do Babilónia até à Cova da Moura, às 23h00. O último comboio era às 23h09, e quando o perdia, tinha de ir a pé. Houve uma vez que o revisor, que não faço ideia de quem era, disse-me: vais ficar aí a fazer o quê? Eu acordei com o barulho do comboio e o revisor chamou-me: Este é o último, não vens? Eu sei que não tens bilhete! E perguntou-me: para onde vais?  Eu respondi: para a Damaia. E voltou a perguntar: Para a Damaia, a pé? Então vem. Foi aí que entrei, sentei-me ao lado dele e pensei: ele não vai fazer-me mal. Isso deu-me resiliência, porque, hoje, os pais que não conseguem levar o(a) filho(a) ao treino, ele (ela), não vai. E eu, nunca senti medo de andar na rua. Na minha cabeça, nunca tive medo de passar em rua nenhuma. Também recordo que a minha primeira viagem foi aos 16 anos, em que saí da cidade. Isso contribuiu na minha formação como ser humano.

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-  𝐀𝐭𝐞́ 𝐪𝐮𝐞 𝐩𝐨𝐧𝐭𝐨 𝐚 𝐜𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 𝐝𝐚 𝐀𝐦𝐚𝐝𝐨𝐫𝐚 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐢𝐛𝐮𝐢𝐮 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐦𝐨𝐥𝐝𝐚𝐫 𝐧𝐚̃𝐨 𝐬𝐨́ 𝐨 𝐚𝐭𝐥𝐞𝐭𝐚 𝐝𝐞 𝐞𝐥𝐢𝐭𝐞, 𝐦𝐚𝐬 𝐭𝐚𝐦𝐛𝐞́𝐦 𝐚 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚 𝐪𝐮𝐞 𝐞́ 𝐡𝐨𝐣𝐞?

- Eu não trocava o sítio e a minha infância por outro lado nenhum. Nem trocava isto por nada. Eu fui mesmo muito feliz aqui, crescer feliz, é muito importante dizer isso.  A Amadora deu-me segurança, confiança. Quando fui ao Senegal, um dos rapazes que estava comigo, tinha medo de sair do hotel. E eu, e outro rapaz, que era do Bairro do Cerco, no Porto, saímos fora do espaço de segurança fomos a um restaurante. Passeámos em Dakar, era uma confusão doida, mas nós sentíamo-nos em casa.

- 𝐎𝐥𝐡𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐨 𝐬𝐞𝐮 𝐩𝐞𝐫𝐜𝐮𝐫𝐬𝐨 𝐢𝐧𝐭𝐞𝐫𝐧𝐚𝐜𝐢𝐨𝐧𝐚𝐥, 𝐪𝐮𝐚𝐢𝐬 𝐟𝐨𝐫𝐚𝐦 𝐨𝐬 𝐦𝐨𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨𝐬 𝐨𝐮 𝐜𝐨𝐧𝐪𝐮𝐢𝐬𝐭𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐨 𝐦𝐚𝐫𝐜𝐚𝐫𝐚𝐦 — 𝐝𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨 𝐞 𝐟𝐨𝐫𝐚 𝐝𝐨 𝐫𝐢𝐧𝐠𝐮𝐞 — 𝐞 𝐩𝐨𝐫𝐪𝐮𝐞̂?

- O primeiro título da Europa, em Milão. Foi incrível, porque eu tinha 20 anos, era um miúdo e acho que também sou muito abençoado com a sorte, acho que não era assim tão bom para ganhar aquilo que ganhei. Era na altura certa. Fui jogar a Itália com um atleta que vinha com 42 vitórias por KO no primeiro assalto. Estávamos no ranking, bem classificados. Ninguém queria jogar com aquele italiano e fomos nós, que não dizíamos que não a nada. Foi a primeira vitória internacional, foi aí que ficamos num patamar a sério. Até hoje, nunca ninguém na Europa foi Campeão da Europa com menos de 20 anos. É um recorde que continua vivo! Também tínhamos sido campeões nacionais profissionais há 6 meses. Foi uma vitória incrível.

- 𝐎 𝐪𝐮𝐞 𝐬𝐢𝐠𝐧𝐢𝐟𝐢𝐜𝐨𝐮, 𝐚 𝐧𝐢́𝐯𝐞𝐥 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐥 𝐞 𝐩𝐫𝐨𝐟𝐢𝐬𝐬𝐢𝐨𝐧𝐚𝐥, 𝐫𝐞𝐜𝐞𝐛𝐞𝐫 𝐨 𝐏𝐫𝐞́𝐦𝐢𝐨 𝐏𝐫𝐞𝐬𝐭𝐢́𝐠𝐢𝐨 “𝐀𝐦𝐚𝐝𝐨𝐫𝐚 𝐃𝐞𝐬𝐩𝐨𝐫𝐭𝐨”, 𝐧𝐚 𝟏𝟎.ª 𝐆𝐚𝐥𝐚 𝐝𝐨 𝐃𝐞𝐬𝐩𝐨𝐫𝐭𝐨 𝐝𝐚 𝐀𝐦𝐚𝐝𝐨𝐫𝐚?

- Quem escolheu para atribuir-me este prémio, não tem noção do tempo em que eu olhava para ele e o desejava receber. Eu nunca comentei com ninguém. Por exemplo, o Jorge Fonseca ganhou antes de mim e eu estive tão feliz por ele, (é como se fosse meu irmão). O Jorge Andrade também ganhou, deixou-me feliz, porque era uma coisa que eu também queria. Foi um dia mesmo bonito para mim, porque estava feliz por ser reconhecido na minha zona. Isto passa também por um projeto pessoal: gostava de ter uma escola de kickboxing em Loures, Torres Vedras, Sintra, com sede na Amadora, mas eu quero que as pessoas nos reconheçam como a Academia da Amadora. 

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- 𝐎 𝐤𝐢𝐜𝐤𝐛𝐨𝐱𝐢𝐧𝐠 𝐞𝐱𝐢𝐠𝐞 𝐮𝐦 𝐞𝐥𝐞𝐯𝐚𝐝𝐨 𝐜𝐨𝐧𝐭𝐫𝐨𝐥𝐨 𝐟𝐢́𝐬𝐢𝐜𝐨 𝐞 𝐦𝐞𝐧𝐭𝐚𝐥. 𝐐𝐮𝐞 𝐯𝐚𝐥𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐜𝐨𝐧𝐬𝐢𝐝𝐞𝐫𝐚 𝐞𝐬𝐬𝐞𝐧𝐜𝐢𝐚𝐢𝐬 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐚𝐥𝐜𝐚𝐧𝐜̧𝐚𝐫 𝐞 𝐦𝐚𝐧𝐭𝐞𝐫 𝐨 𝐬𝐮𝐜𝐞𝐬𝐬𝐨 𝐚𝐨 𝐦𝐚𝐢𝐬 𝐚𝐥𝐭𝐨 𝐧𝐢́𝐯𝐞𝐥?

- Compromisso, porque, é um desporto duro.  Toda a gente olha para o combate como uma coisa dura, mas os treinos são muito mais. Até tens que perder peso, é um contrassenso, mas tem de se meter menos gasolina para fazer mais quilómetros. A pessoa tem de querer, mostrar. Isso ajudou-me muito nos negócios, na escola, porque quem ganha é só quem não desiste. A resiliência é a palavra-chave. Num combate, temos de ser arrogantes para confiar no trabalho desenvolvido, mas temos de pensar que o outro que lá está, tem armas e temos de ter humildade para ter sempre cuidado com elas. E os miúdos que estão na Academia, mais do que atletas, estamos a fazer deles homens. Já fui à Tailândia cerca de sete vezes e em várias, acompanhei as comitivas da Seleção Nacional. Numa delas, a Presidente da Federação, Ana Cristina Vital Melo, a “Kiki”, ofereceu do seu próprio bolso, um jantar aos miúdos que foram connosco e promoveu um passeio de barco, porque não sabíamos se muitos deles iam ter novamente essa experiência.Tive muita sorte, notoriedade, porque o meu desporto não é mediático. 

- 𝐇𝐨𝐣𝐞, 𝐞𝐧𝐪𝐮𝐚𝐧𝐭𝐨 𝐫𝐞𝐟𝐞𝐫𝐞̂𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐩𝐚𝐫𝐚 𝐦𝐮𝐢𝐭𝐨𝐬 𝐣𝐨𝐯𝐞𝐧𝐬, 𝐪𝐮𝐞 𝐦𝐞𝐧𝐬𝐚𝐠𝐞𝐦 𝐝𝐞𝐢𝐱𝐚𝐫𝐢𝐚 𝐚𝐨𝐬 𝐚𝐭𝐥𝐞𝐭𝐚𝐬 𝐝𝐚 𝐀𝐦𝐚𝐝𝐨𝐫𝐚 𝐪𝐮𝐞 𝐚𝐦𝐛𝐢𝐜𝐢𝐨𝐧𝐚𝐦 𝐮𝐦𝐚 𝐜𝐚𝐫𝐫𝐞𝐢𝐫𝐚 𝐧𝐨 𝐝𝐞𝐬𝐩𝐨𝐫𝐭𝐨 𝐝𝐞 𝐚𝐥𝐭𝐨 𝐫𝐞𝐧𝐝𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨?

- Não se focarem na vitória. Isto é muito importante: eles não são os melhores do mundo se ganharem, mas não são os piores do mundo se perderem. Ou seja, têm de descansar a cabeça e voltarem a tentar, porque para se ter uma carreira de alto rendimento não basta gostar do desporto, não basta ser bom, tem de se ter coragem de enfrentar o fracasso, olhos nos olhos. A derrota faz parte. Não é só quem ganha, é sobre quem não fica em casa quando perde.

CRÉDITOS - AMADORA CIDADE

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