• Segunda-feira, 1 Junho 2026

Obstipação Infantil: um problema frequente que merece atenção

Marta Carneiro de Moura, gastrenterologista pediátrica no Hospital CUF Cascais

A obstipação infantil é um problema muito frequente e uma das principais causas de consulta em Pediatria e Gastrenterologia Pediátrica. Caracteriza-se pela dificuldade em evacuar, e as diferentes fases do desenvolvimento da criança podem favorecer o seu aparecimento.

Momentos como a introdução alimentar, o desfralde, o início da escola ou situações de stress e alterações emocionais são particularmente sensíveis e podem desencadear alterações do trânsito intestinal. Além disso, uma alimentação pobre em fibras, a baixa ingestão de líquidos, o sedentarismo e alterações na rotina diária têm impacto direto no funcionamento intestinal.

A que sintomas devem os pais estar atentos?

Os sintomas podem variar conforme a idade da criança, mas os mais frequentes incluem evacuações pouco frequentes (menos de 3 vezes por semana), fezes duras, queixas de dor abdominal, a necessidade de fazer muito esforço ou sentir dor ao evacuar e a presença de sangue nas fezes ou no papel higiénico.

Em mais de 95% dos casos a obstipação é funcional, ou seja, não existe nenhuma doença subjacente. Nestas situações, geralmente, não é necessário a realização de exames de diagnóstico.

E como se trata?

O tratamento da obstipação exige tempo, persistência e colaboração entre pais, criança, escola e profissionais de saúde.

Uma alimentação equilibrada e rica em fibras é fundamental para estimular o trânsito intestinal. A fibra aumenta o volume das fezes e melhora a sua consistência, tornando-as mais fáceis de eliminar. As fibras estão presentes em frutas frescas com casca, frutas secas, legumes, leguminosas, aveia e cereais integrais.

Quando é difícil garantir uma ingestão adequada de fibras através da alimentação, podem ser recomendados suplementos de fibra em pó, adicionados aos alimentos, ou farinha de sementes de linhaça.

A ingestão insuficiente de água também contribui para o desenvolvimento de obstipação. Atualmente, muitas crianças bebem menos líquidos do que o recomendado, o que pode agravar esta condição. As necessidades diárias de água variam consoante a idade: dos 2 aos 3 anos, as crianças devem beber cerca de 400 a 800 ml de água por dia, o que se traduz em, aproximadamente, 2 a 4 copos; dos 3 aos 8 anos, recomendam-se 4 a 5 copos, que correspondem a cerca de 1,5 litros; já após os 9 anos, devem ingerir cerca de 2 litros, ou seja, 6 a 8 copos de água por dia.

Outro aspeto muito importante é a criação de uma rotina intestinal. Incentivar a criança a utilizar a casa de banho em horários regulares, especialmente após as refeições, permanecendo sentada durante alguns minutos, ajuda o organismo a desenvolver hábitos intestinais saudáveis.

Por sua vez, a prática regular de atividade física favorece o movimento natural do intestino e reduz o risco de obstipação.

Em alguns casos, pode ser necessário recorrer ao uso de laxantes, que são medicamentos que facilitam a eliminação das fezes. A Sociedade Europeia de Gastrenterologia, Hepatologia e Nutrição Pediátrica recomenda a utilização de laxantes osmóticos, isto é, que aumentam a absorção de água pelo intestino. Contudo, a par desta medicação, é fundamental aumentar a quantidade de líquidos que a criança ingere, ao longo do dia.

Quando se deve procurar ajuda médica?

Os principais sinais de alerta para consultar o pediatra ou gastrenterologista pediátrico são a má progressão do peso da criança, vómitos persistentes e distensão abdominal, sangue nas fezes, recusa ou evicção da utilização da sanita, ausência de melhoria apesar do tratamento e a perda involuntária de fezes.

A boa notícia é que a identificação precoce dos sintomas e a adoção de hábitos saudáveis permitem, na maioria dos casos, controlar a obstipação infantil e melhorar a qualidade de vida da criança e da família. Se o seu filho sofre de obstipação, não hesite em procurar orientação médica.

Artigo Anterior
JF Venteira cede duas lojas…
Artigo Seguinte
Mulher de 39 anos detida…

Relacionados