• Terça-feira, 21 Abril 2026

"Nada é possível sem esforço e resiliência. Lutem pelos vossos sonhos"

Jorge Peixeiro, treinador do GMD Manique de Baixo e selecionador nacional na vertente de kata, é uma das principais figuras do mundo do karaté em Portugal e dos mais influentes do mundo, tendo sido distinguido como um das personalidades 2025 pela Federação Nacional de Karaté. O LOCAL entrevistou Jorge Peixeiro, que focou os mais diversos temas desde o seu início na modalidade, ao cargo de selecionador nacional, passando pelo Manique, ou pelo karaté em Portugal.

Como começou o seu percurso no karate e o que o levou a especializar-se na disciplina de kata?

Iniciei a prática do Karate aos 7 anos, numa altura em que tinha aberto um dojo muito perto da minha casa. Vivíamos também uma época em que os filmes de artes marciais estavam muito na moda e a vontade de experimentar surgiu quase de imediato. A ligação à modalidade foi praticamente instantânea. Quanto à especialização na disciplina de kata, creio que aconteceu de forma bastante natural. Desde cedo senti uma maior identificação com esta vertente, algo que rapidamente se confirmou através da competição. Toda a minha carreira desportiva esteve ligada ao kata e, naturalmente, o mesmo aconteceu no meu percurso enquanto treinador.

Atualmente divide funções entre treinador no GMD Manique de Baixo e selecionador nacional. Como concilia estas duas responsabilidades?

A responsabilidade de ser Selecionador Nacional surgiu em 2018, inicialmente nos escalões de Cadetes e Juniores. Já a minha ligação ao Manique enquanto treinador remonta a 1999. Uma vez que o cargo de Selecionador Nacional não exige exclusividade, em Portugal é possível conciliar ambas as funções. Naturalmente, o contexto de trabalho é diferente.

As competências de um treinador têm de ser ajustadas à realidade em que se encontra. Treinar a Seleção Nacional implica sempre um nível de responsabilidade superior, exigindo um ajuste no discurso e na metodologia de treino, pois estamos a trabalhar com os melhores atletas do país, provenientes de diferentes dojos. É fundamental saber gerir essa diversidade e criar uma ligação eficaz com um grupo muito heterogéneo.

De que forma o trabalho desenvolvido no GMD Manique de Baixo tem contribuído para a formação de atletas e para o crescimento do karate na região?

Mais do que formar atletas, procuramos formar pessoas, integrando os jovens praticantes num conjunto de valores que consideramos fundamentais para a sociedade. Face ao sucesso desportivo de alguns dos nossos praticantes, temos tido também o privilégio de acolher no nosso grupo de trabalho atletas de elevadíssimo nível nacional. Isso tem reforçado a qualidade do grupo e, ao mesmo tempo, colocado o clube e a região entre os mais competitivos, não apenas em Portugal, mas também a nível internacional.

Atualmente, no nosso grupo de trabalho, contamos com seis atletas integrados no estatuto de Alto Rendimento, num universo de apenas quinze em todo o país, o que demonstra bem a qualidade do trabalho desenvolvido e o nível dos nossos atletas.

Enquanto selecionador nacional de kata, quais são atualmente os principais desafios da seleção portuguesa?

Creio que Portugal atingiu um patamar bastante competitivo a nível internacional, estando alinhado com os resultados das melhores seleções do mundo, com exceção do Japão. Essa competitividade é muito evidente nos escalões mais jovens. O grande desafio passa agora por conseguir transportar essa mesma consistência para o escalão sénior. Apesar de nos termos aproximado bastante nos últimos anos, ainda existe alguma dificuldade em sermos competitivos de forma consistente com as maiores potências mundiais. Ainda assim, os resultados recentes demonstram a qualidade do nosso trabalho, como é o caso do título de vice-campeãs do Mundo e da Europa em kata equipa sénior feminino. Para continuarmos a evoluir, é fundamental que a Federação continue a crescer e a criar cada vez mais estrutura de apoio ao trabalho das seleções.

O karaté português tem alcançado resultados relevantes nos últimos anos. Que fatores têm contribuído para essa evolução?

Esta evolução resulta do crescimento conjunto de vários intervenientes da modalidade. Os clubes estão hoje muito mais ligados ao movimento internacional, com uma participação cada vez maior nas ligas dos circuitos mundiais. Paralelamente, treinadores e atletas têm vindo a elevar o nível de competência e exigência no seu trabalho.

A Federação, por sua vez, tem procurado criar uma estrutura que suporte este crescimento, aumentando o volume de treino das seleções nacionais. As equipas técnicas também estão cada vez mais preparadas e, no caso do kata, a contribuição dos diferentes treinadores e das suas visões técnicas tem contribuído para uma melhoria generalizada da qualidade dos atletas. Atualmente a Equipa Técnica Nacional de Kata é composta por mim, pelo Sensei Ricardo Gomes e pelo Sensei José Carvalho.

Tem existido também um esforço para reforçar áreas complementares fundamentais, como a psicologia, com o Dr. Nuno Cardoso, e a prevenção e tratamento de lesões, com o Dr. Omid Bahrami. Também temos o contributo dos Centros de Alto Rendimento, nomeadamente o do CAR Lisboa, que tem potenciado de uma forma evidente todos os atletas que por lá trabalham.

Que características considera essenciais num atleta para integrar a Seleção Nacional de kata?

A integração de atletas na Seleção Nacional respeita, naturalmente, critérios definidos nos regulamentos de seleção. Ainda assim, existe também espaço para integrar talentos que demonstrem um potencial claro. Para além das competências técnicas e físicas, valorizamos muito características pessoais e sociais. Um atleta de Seleção Nacional deve demonstrar compromisso, capacidade de trabalho, disciplina e uma forte capacidade de integração num grupo que representa o país.

Como é preparado o trabalho da seleção para grandes competições internacionais, como Campeonatos da Europa ou do Mundo?

A preparação das seleções nacionais segue um plano de desenvolvimento estruturado e orientado para cada competição. Temos procurado manter uma dinâmica de trabalho em que atletas de diferentes escalões treinam frequentemente em conjunto, promovendo partilha de experiência e crescimento coletivo. Apenas em momentos de estágio específicos limitamos os treinos aos atletas convocados para determinada prova. De forma geral realizamos um treino mensal, intensificando essa frequência à medida que nos aproximamos das grandes competições. O trabalho desenvolvido assenta em quatro pilares fundamentais: condicionamento físico, aperfeiçoamento técnico, preparação psicológica e enquadramento estratégico face à competição em causa.

Na sua opinião, que aspetos ainda precisam de ser reforçados para o karate português continuar a crescer e afirmar-se internacionalmente?

No que diz respeito às seleções nacionais, ainda existe um caminho significativo a percorrer para alcançarmos as condições de trabalho que existem noutros países. Precisamos de melhores infraestruturas, mais tempo de concentração em estágio e mais recursos humanos de apoio ao treino. Um aspeto igualmente importante passa por conseguirmos reter os atletas no escalão sénior.

Muitos atletas de grande qualidade acabam por se afastar da competição quando entram na vida profissional, por dificuldade em conciliar as exigências do alto rendimento com a sua carreira. É fundamental criar condições que permitam aos atletas continuar a competir a um nível elevado, seja através de carreiras paralelas compatíveis com a prática desportiva ou, idealmente, caminhando para uma maior profissionalização.

Nesse sentido, o apoio do Estado pode ter um papel determinante, criando mecanismos que permitam integrar estes atletas em percursos profissionais que lhes deem estabilidade, sem comprometer a possibilidade de continuarem a representar Portugal ao mais alto nível. Ao nível dos clubes, creio também que é importante continuar a evoluir na visão da modalidade e criar melhores condições para os atletas, com um foco cada vez maior no karate desportivo.

Qual é a importância dos clubes locais na formação de jovens atletas e na renovação das seleções nacionais?

Os clubes são a base de toda a estrutura da modalidade. É nesse contexto que os atletas iniciam o seu percurso, desenvolvem competências e constroem os alicerces que lhes permitem, mais tarde, chegar ao alto nível. O papel das seleções passa por potenciar esse valor que é criado nos clubes, orientando também a comunidade para aquilo que é a visão e o entendimento técnico das seleções nacionais.

Que mensagem gostaria de deixar aos jovens praticantes de karaté que sonham um dia representar Portugal?

A mensagem é simples e serve para todos: nada é possível sem esforço e resiliência. Lutem pelos vossos sonhos e procurem criar à vossa volta as condições necessárias para evoluir. Trabalhem diariamente para serem melhores, sem desistir perante as dificuldades. As desilusões fazem parte do processo de crescimento. Acima de tudo, pautem o vosso percurso pela ética e pela dedicação. Foquem-se em vocês próprios e na vossa evolução, nunca nos vossos adversários e nos vossos receios. Sejam felizes no percurso!

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