• Sexta-feira, 18 Setembro 2026

Centro Comercial da Portela faz 50 anos com negócios que passaram de geração em geração

O Centro Comercial da Portela, em Loures, assinala meio século de história esta sexta-feira, e entre os seus mais de 250 espaços há negócios que atravessaram décadas e famílias de lojistas que passaram o balcão de geração em geração.

Há 50 anos, quando o conceito de ‘shopping’ ainda estava longe de fazer parte do quotidiano dos portugueses, nasceu na então Portela de Sacavém, concelho de Loures e distrito de Lisboa, um espaço que antecipava uma nova forma de fazer compras.

Na sua página oficial na internet, o Centro Comercial da Portela (CCP) lembra o facto de ser precursor em Portugal dos espaços comerciais que permitem ter concentrado em três andares “tudo o que as lojas de rua habitualmente oferecem”.

Entre as lojas localizadas no centro da urbanização da Portela, num edifício de forma redonda, a oferta vai do talho à mercearia, da farmácia à livraria, da sapataria ao cabeleireiro, passando pela restauração, banca, seguros, serviços profissionais e muitas outras atividades.

Houve também cinema, com duas salas com os nomes Sheza e Anusha, escolhidos em homenagem às duas filhas do gerente dos cinemas na altura. Ambas funcionaram desde a inauguração do centro até ao seu encerramento definitivo no final dos anos 1990.

Mais do que um local para fazer compras, o espaço continua, 50 anos depois, a funcionar como ponto de encontro de quem vive na Portela.

Apesar da “profunda transformação do comércio ao longo das cinco décadas”, o comércio tradicional mantém-se dentro da grande superfície, com dezenas de comerciantes independentes, “muitos deles conhecidos pelo nome pelos seus clientes”.

"Sou portelense há precisamente 50 anos e cresci no Centro Comercial da Portela, onde os meus pais estiveram desde os primeiros tempos, primeiro com a livraria Flavis e, mais tarde, com a livraria Orvil, que abriu em 1984 e continua em atividade”, disse à Lusa Joana Freitas.

Joana lembrou também que, à sua semelhança, muitos filhos de comerciantes cresceram nos corredores do CCP e “alguns estão hoje à frente dos negócios das suas famílias”. É livreira de segunda geração, apesar de a mãe, aos 88 anos, ainda abrir e fechar a Orvil todos os dias.

“Ao longo de décadas, fomos conhecendo os clientes, os pais, os filhos e, entretanto, os netos. Acompanhámos alegrias, casamentos, nascimentos e também momentos menos bons. É quase como um casamento: estamos presentes no bom e no mau. Ouvimos, estamos atentos, partilhamos conselhos, histórias e muitos sorrisos”, contou.

Lembrando que ao longo dos anos se tem assistido, um pouco por todo o país, ao desaparecimento de espaços comerciais, Joana Freiras salientou que o CCP “conseguiu resistir e reinventar-se”.

“Hoje, sinto que está mais vivo do que nunca. Há novas gerações de comerciantes, clientes que continuam a fazer aqui a sua vida quotidiana e uma ligação à comunidade que se mantém muito forte. É isso que faz deste centro muito mais do que um conjunto de lojas: é um lugar feito de pessoas, relações e memórias”, acrescentou.

Ângelo Marçal, do Portela Cafés, disse, em declarações à Lusa, que a sua história de vida “caminhou junto” com a história da empresa. Recém-chegado de Angola, o empresário, atualmente com 89 anos, foi para a Portela e está desde o início no CCP.

“Saí de Angola com vontade de trabalhar e construir vida faz em janeiro 50 anos. Desde então este lugar passou a fazer parte da minha vida”, disse Ângelo Marçal, lembrando que a marca começou por ser chamada Casa dos Cafés Portela e, entretanto, “os tempos mudam, o nome mudou, mas a qualidade é igual”.

Também Ângelo Marçal considera que os clientes “têm uma enorme importância” no sucesso do centro e muito significaram ao longo dos anos, passados por vezes "com algumas dificuldades", conforme explicou, "mas sempre com a ideia de respeitar as pessoas e fazer o melhor trabalho possível”.

“Uma vida inteira de muito trabalho, esforço e amizades. Aqui cresci e acompanhei o crescimento de clientes”, disse, acrescentando que não se reformou e que ainda está à frente dos negócios, apesar de os seus dois filhos já estarem a trabalhar consigo.

Na sexta-feira, os 50 anos vão ser assinalados com uma celebração no centro comercial, aberta à população e pensada para reunir moradores, clientes e lojistas, atuais e antigos, em torno da história do espaço e da sua ligação à comunidade.

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