• Quinta-feira, 15 Outubro 2026

Villa Itália, em Cascais: o exílio dourado do último rei de Itália

À beira da Boca do Inferno, com o Atlântico como pano de fundo, a Villa Itália, hoje transformada num hotel de cinco estrelas, foi durante décadas a residência de Humberto II de Sabóia, o último rei de Itália.

Humberto II chegou ao trono a 9 de maio de 1946, após a abdicação do pai, Vítor Manuel III. A tentativa de salvar a monarquia, profundamente desgastada pela associação da Casa de Sabóia ao fascismo de Benito Mussolini, revelou-se inútil. Pouco depois, um referendo nacional ditou o fim da monarquia italiana, obrigando Humberto II a partir para o exílio.

Portugal, marcado pela neutralidade durante a Segunda Guerra Mundial, e pela tradição católica, tornou-se o destino escolhido pela família real. Nesse período, Cascais e o Estoril eram já um palco internacional, acolhendo reis depostos, aristocratas, espiões e outras figuras da elite europeia.

Em junho de 1946, Humberto II chegou a Portugal com a mulher, a rainha Maria José, e os quatro filhos. Desembarcaram de um navio de guerra italiano e instalaram-se em Cascais. Poucos dias depois, receberam a visita oficial de António de Oliveira Salazar.

Antes de se fixar na Villa Itália, a família viveu noutras residências, incluindo uma casa disponibilizada pela família Pinto Basto, cuja construção oitocentista sobreviveu e acabou integrada no atual hotel. Mais tarde, os monárquicos italianos organizaram uma campanha de angariação de fundos para oferecer ao antigo rei uma residência própria. Assim nasceu a Villa Itália.

Durante as décadas de 1950 e 1960, a casa tornou-se ponto de encontro da aristocracia europeia, acolhendo receções, jantares e encontros. Com 21 quartos, oito casas de banho e cerca de 8.500 metros quadrados de jardins, a propriedade evocava o ambiente das grandes mansões descritas por F. Scott Fitzgerald em “The Great Gatsby” — mas com o Atlântico de Cascais como cenário.

Longe do protocolo, Humberto II apreciava as coisas simples. Nadava no Guincho, passeava por Cascais e desenvolveu uma relação próxima com a população local, sobretudo com as famílias de pescadores. Essa ligação ficou registada por Júlio Sauerwein em “Exilados Régios no Estoril”, publicado em 1955. Mais tarde, uma avenida de Cascais recebeu o nome de Rei Humberto II de Itália.

Durante quase quatro décadas, a Villa Itália foi casa, ponto de encontro da aristocracia exilada e símbolo de um reino perdido.

Humberto II morreu em 1983, internado em Genebra, sem nunca poder regressar a Itália. Depois da sua morte, a propriedade entrou em declínio e, em 1987, os herdeiros do rei colocaram-na no mercado por 188 mil contos. O grupo Real Parque adquiriu-a e iniciou a recuperação do imóvel.

Hoje integrada no Real Hotels Group e transformada em hotel de cinco estrelas, a Villa Itália continua a guardar, entre os seus jardins e paredes voltados para o Atlântico, a memória de um rei sem reino e de uma época em que Cascais foi uma das capitais do exílio europeu.

Vera Nobre - Historiadora / Universidade Nova de Lisboa

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