
Paula Rego volta a estar em grande destaque em Cascais. Duas exposições dedicadas à obra da artista, com destaque para uma centrada no estudo técnico e restauro da pintura "O Exilado", são inauguradas em 31 de março na Casa das Histórias, em Cascais.
"O Exilado: da Criação à Conservação", a exposição apresenta, pela primeira vez, um projeto exclusivamente dedicado à análise material e à intervenção de conservação de uma obra de Paula Rego (1935-2022), tornando visível um processo habitualmente reservado aos bastidores museológicos.
No centro da mostra está "O Exilado (Um velho exilado sonhando a sua juventude)" (1962-63), pertencente à coleção da Câmara Municipal de Cascais, um dos primeiros exemplos das chamadas "pinturas-colagens", fase marcada pela experimentação técnica da artista que morreu aos 87 anos, em Londres.
A exposição permite acompanhar o percurso completo da obra, desde a sua criação até ao processo de restauro, através de imagens, documentação e explicações que detalham os métodos, decisões e critérios que orientam a preservação da pintura ao longo do tempo, indica a Casa das Histórias Paula Rego (CHPR), em comunicado.
A investigação foi conduzida pelas conservadoras restauradoras Laura Bacalhau e Sara Babo, envolvendo o Departamento de Conservação e Restauro da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa e Sílvia Sequeira, do Laboratório José de Figueiredo, em articulação com a curadoria de Catarina Alfaro.
O estudo combinou observação direta, imagiologia com diferentes tipos de radiação, análises laboratoriais e pesquisa documental, permitindo identificar colagens ocultas, alterações compositivas e sobreposições de materiais, descreve.
Estes resultados "contribuíram para uma compreensão aprofundada do processo criativo da artista, ao mesmo tempo que revelaram os mecanismos de degradação que afetaram a obra ao longo de mais de seis décadas", acrescenta o museu.
A intervenção de conservação centrou-se na estabilização da obra, incluindo "operações de limpeza, consolidação, adesão dos elementos e reintegração cromática pontual, seguindo princípios como a intervenção mínima, a compatibilidade e a reversibilidade".
Ao divulgar este processo, o objetivo da CHPR é propor uma reflexão sobre o papel do tempo, da técnica e da conservação na preservação das obras de arte, "aproximando o público do trabalho científico que sustenta a atividade museológica".
Em paralelo, a Casa das Histórias inaugura no mesmo dia a exposição "Paula Rego: Meninas Exemplares", também com curadoria de Catarina Alfaro, que explora a figura da menina-mulher, um dos temas recorrentes na obra da artista.
Inspirada no universo literário da Condessa de Ségur, a exposição parte da ideia de que a infância não corresponde a um espaço de inocência, mas a um território onde coexistem o bem e o mal, e onde as crianças exercem formas de poder.
O percurso reúne séries fundamentais da obra gráfica de Paula Rego, incluindo as litografias "O vestido cor de salmão" e "Comunhão", associadas a poemas de Adília Lopes, bem como trabalhos inspirados em obras literárias de Charlotte Brontë e Blake Morrison.
Numa exposição que evidencia também a "profunda influência da literatura" na obra da pintora, destacam-se ainda obras das séries "Jane Eyre" (2001--2002) e "Bruxas de Pendle" (1996), inspiradas respetivamente na obra de Charlotte Brontë e de Blake Morrison, que "exploram a complexidade, o sofrimento e a psicologia feminina: da sedução e do domínio à resistência e à afirmação da identidade".
A exposição integra ainda a série "Mutilação Genital Feminina" (2009), um dos núcleos mais marcantes do percurso da artista, que denuncia práticas de violência de género e evidencia a dimensão política da sua obra, na qual abordou também os temas do aborto, depressão e alcoolismo.