
Preservar a autenticidade de Cascais e Estoril e garantir que a freguesia continua a ser um lugar para viver, e não apenas para visitar, são ideias centrais na visão de Francisco Kreye. Em entrevista, o presidente faz o balanço do primeiro ano de mandato, fala das medidas para proteger a identidade do centro histórico e apresenta os projetos que quer desenvolver.
O que torna Cascais e Estoril bons locais para viver, visitar, etc?
Eu diria que em Cascais e Estoril nós somos abençoados, e não é mérito de ninguém, é mesmo beleza do nosso património histórico, paisagístico. É um território que é composto por diferentes componentes, nomeadamente o mar e serra. Tem parte do interior, mas que também esse próprio tem história. Desde o Guincho, neste caso da Freguesia, até São Pedro, tem locais que são absolutamente icónicos e que somos agraciados por essa beleza. É uma beleza que também dá trabalho manter porque também tem uma grande procura logo, tem uma grande pressão no que toca ao desgaste das infraestruturas e às pessoas que procuram vir até cá. E muitas vezes esse equilíbrio entre quem nos quer visitar, que são prioritariamente turistas, seja de mercado externo ou interno, e quem cá vive, é um equilíbrio que é muito importante manter.
Para quem não conhece, o que aconselharia a vir fazer e visitar?
Cascais tem um calendário cultural muito rico, por isso é raro um fim de semana onde não há um calendário de interesse, uma boa exposição cultural, um bom evento desportivo. Mas se isso por acaso não acontecer, temos as nossas praias, temos um belíssimo centro histórico, temos uma zona do Estoril também cheia de história por descobrir. A maior parte dos portugueses, e mesmo quem cá vive desconhece os recantos históricos de quem cá passou.
Mesmo os mais sábios da história de Cascais, se calhar não sabem exatamente quem passou no Palácio dos Condes de Castro Guimarães, ou quem viveu exatamente na Casa Santa Maria, ou quem que esteve no Hotel Palácio, no Estoril, ou qual foi exatamente a obra de Fausto Figueiredo. E isso são tudo muitas histórias de uma obra que nós iremos publicar, que mais do que uma obra, depois vai-se materializar nestes roteiros, onde as pessoas vão poder escrever e usufruir destes roteiros culturais.

Ao nível de eventos o que destacaria?
Dos eventos, destacaria uma coisa que é termos recuperado duas festas que eram muito queridas na freguesia, que são as Festas de São Brás, da zona da Areia, perto do Guincho, que não se realizaram o ano passado. E recuperámos também as festas do Livramento, no Estoril.
E criámos também uma sardinhada que existia em diferentes moldes. Era uma sardinhada que a própria Junta organizava nos santos populares para agradecer aos parceiros, aos voluntários e o conceito resultava muito bem. Mas nós quisemos fazer um bocadinho diferente. Abrimos a toda a comunidade e descentralizámos completamente. Fomos para São João do Estoril, Quinta da Carreira, que é uma zona de enorme densidade populacional. E chamámos-lhe carinhosamente o Bye Bye Santos Populares.
Que balanço faz deste primeiro ano de mandato?
Nós tomámos posse no dia 30 de Outubro de 2025. Eu, na cerimónia da tomada de posse, anunciei uma petição pública, que tinha como base a revisão do licenciamento zero, que tem sido a porta de entrada e o motivo da descaracterização do centro histórico, da perda da identidade, das lojas padronizadas, conhecidas como lojas de fachada.
Nós fizemos um caminho muito longo, esta foi logo a minha primeira batalha, uma vez que a anunciei na tomada de posse. E à data foi uma petição que teve muito impacto na comunidade, não só local como também nos próprios mídias a nível nacional. Foi uma petição que em três dias recolheu 11 mil assinaturas.
Este executivo, na minha pessoa, fomos mais de oito vezes à Assembleia da República, fizemos a defesa dessa mesma petição em Comissão de Economia e Coesão Territorial. E foi um longo caminho, ao longo destes 11 meses, de muita persistência, e foi com enorme satisfação e honra que vemos que o Ministro anunciou que o novo pacote legislativo é todo o enquadramento e a proposta da petição pública.
Muitos na altura criticaram mas não é por aqui a solução, devia ser assim, devia ser assado, mas ninguém apontou a solução. E na proposta da petição, que tem lá e está online e é consultável, dá para perceber que a solução que nós apontávamos, que era passar a questão do licenciamento para os municípios, é aquela exatamente que o Ministro anuncia que a vai tomar. Acho que isso é o maior elogio que pode acontecer, porque na altura já estava muito convicto na impossibilidade de haver uma fiscalização diária por parte das autoridades, ou sabendo eles que depois da loja ser fechada, que eles conseguiam abrir no dia seguinte.
Eu sabia que a solução passava pela revisão do licenciamento zero e passar a competência do licenciamento para os municípios. É a única forma de estancar. Os municípios e as juntas de freguesia conhecem o terreno, sabem quando é que está a abrir, quando é que não está a abrir. E essa é indismentível, é incontornável dizer que tem sido a maior marca deste primeiro ano de mandato.

O segundo ponto que eu destacaria foi a recomendação que fizemos à Câmara, aprovada em Assembleia de Freguesia, relativa também no seguimento desta primeira, que teve a ver com a venda e com o consumo de bebidas alcoólicas em via pública.
Nos nossos tempos era saudável uma pessoa beber uma cerveja em via pública e não há problema nenhum com isso. Nem é isso que nós queremos impedir. O que nós queremos é que haja respeito e limpeza urbana por quem cá vive, no centro histórico. E não é razoável uma pessoa acordar no dia seguinte e ter a entrada do seu prédio com garrafas, com lixo que ficou da noite anterior. E também foi com alegria que vimos a Câmara adotar esta medida.
Nós temos dedicado muito a esta questão da higiene urbana, do cuidado, porque há uma perceção que o centro histórico já não vive aqui ninguém, que é tudo alojamentos locais. É falso. Há muita gente a viver aqui. Há muitos que viveram a vida toda.
Também nos encontramos a fazer uma atualização da identidade visual de toda a junta, toda a marca da junta de freguesia. Consideramos que há uma relação fria entre quem vê, por exemplo, a nossa marca e o nosso logótipo.
Poucas pessoas sabem identificar exatamente se é junta ou não. Até ara queas pessoas percebam, quando há uma equipa a fazer a calçada, é a junta que está a fazer a calçada. Se há uma equipa que está a arranjar um sinal, um pilarete, a pintar uma passadeira, um sinal de stop, uma cedência de passagem, saibam, ou se há um evento cultural, saibam identificar que é a junta de freguesia que está a desenvolver esse trabalho.
E não é uma questão de ego, é uma questão das pessoas entenderem que a junta de freguesia está próxima e está a desenvolver trabalho, com os impostos das pessoas.
Está concluído, acho que falta um edifício, seguir a recomendação de seguir todas as pisadas para a descarbonização e a redução da pegada carbónica. Neste momento instalámos em sete edifícios da junta de freguesia, já em património nosso painéis solares.
Isto permitirá uma poupança superior a 10 mil euros anuais. Em cinco anos alcançaremos o break-even, face ao investimento que fizemos, que foi superior a 50 mil euros. Amanhã o Francisco Kreye e este executivo podem ir embora, que é algo que vai ficar para a junta.
O único que não conseguimos instalar, é neste próprio edifício (da Junta), porque tem uma regulação muito restrita por estar inserida no Centro Histórico e não permite a instalação de painéis solares.
Que iniciativas e projetos têm vindo a ser feitos para melhorar a qualidade de vida aqui da população?
A escola secundária de Cascais, por todo o seu enquadramento, foi aquela que teve mais foco, porque eram mais de 50 anos provisórias. Eu próprio fiz lá o meu secundário durante 3 anos. Também sou filho daquelas instalações provisórias.
Mas há uma quantidade muito significativa de milhões de euros investidos. Nomeadamente o Liceu de São João do Estoril, que é também uma das escolas com o maior número de alunos da freguesia do país e consequentemente do concelho, onde são cerca de 14 milhões de euros de investimento, de requalificação.
Não é nova, mas a escola vai ser praticamente nova. Vai nascer um pavilhão escolar do melhor que existe em Portugal, refeitórios novos, salas de aulas novas. A escola não era provisória como era a escola secundária de Cascais, mas vai ser praticamente nova.
O Sr. Presidente da Câmara anunciou um número que só para este ano eram 80 e qualquer coisa milhões de euros investidos em escolas, ele só está a contar com a verba do município. Eu tenho aqui a nota que de facto nós alocamos muito do nosso orçamento, porque na delegação de competências é a Junta de Freguesia que faz a manutenção.
Portanto, a Câmara, se for assim uma obra destas de requalificações absolutas, é de facto competência do município. Mas nós estamos lá no vidro partido, na torneira estragada, na sanita entupida, no chão que está estragado. Eu só neste último ano tenho mais de 600 intervenções em escolas.
Eu diria que até o nosso maior desafio é ter esta compilação de todas as requalificações que estão a ocorrer. Parques infantis foram três. Do bairro das Caixas, do Jardim de Infância da Torre e da Charneca. Requalificação de polidesportivo, que é num bairro que agora o nome oficial é o Pinhal Novo, mas era conhecido como o bairro do fim do mundo.
Também lançámos um concurso público sem precedentes no que toca a betuminoso. Serão mais de 15 ruas completamente requalificadas na zona do Estoril.
Aquilo que nós temos procurado fazer é intensificar este cuidado, este pequeno detalhe que pode parecer pequeno, mas pode fazer uma enorme diferença na vida das pessoas.

O que sente que ainda quer fazer nestes anos de mandato que ainda se seguem?
Eu disse isto na minha tomada de posse, que não iria fazer promessas, que o único compromisso que assumia era trabalho e ação e que depois os resultados falariam por si. E tem sido muito isso. Nós, obviamente, temos projetos que sabemos que alguns não conseguiremos fazer neste primeiro ano e não vamos conseguir fazer até o final do ano.
Mas há uma questão, nós somos das poucas juntas de freguesia, por este país de fora, que tem galerias de arte. E vamos preparar uma grande requalificação na Galeria de Arte de Cascais e do Estoril de forma a apoiar quem expõe nas nossas galerias de arte.
São as pessoas da freguesia, os artistas da freguesia. Pode ser pintura, pode ser um artista plástico, pode ser de forma também a torná-los um espaço mais polivalente, porque neste momento estão esquecidas áreas como a música, porque não têm o tratamento acústico que poderiam ter. No caso da Galeria de Arte do Estoril, tem um problema bastante acústico que não permite uma apresentação do livro, que também é arte, literatura. Não permite, se calhar, a parte musical, que também é arte e cultura.
Eu diria que este ano zero nunca pensei em apagar tantas patologias da freguesia. Ou seja, eram questões que eram mais urgentes de resolver e que eu achei considerável que precisaria mais tempo para resolver e que ficam já arrumadas, o que é naturalmente positivo.
Mas obviamente, preocupa-nos a parte social, que também merece muita atenção. Infelizmente é um trabalho que não terminará, não é estático, é dinâmico. As exigências vão-se alterando, nomeadamente estarmos sempre atentos à vulnerabilidade e às pessoas em situação mais vulnerável, como pessoas em situação de carência económica, pessoas em situação de sem-abrigo.
Temos procurado montar e estruturar equipas de intervenção cada vez mais rápidas e o município aqui também tem tido um grande trabalho de articulação connosco nesta intervenção mais rápida. Como é que conseguimos responder a estas pessoas quando têm um diagnóstico relacionado com problemas de saúde mental ou de consumo ou dependência? A sociedade ainda não encontrou, e não é só a nossa.
Este trabalho começou há um ano, no início do mandato. Por acaso, o vereador que lá está é o ex-presidente da junta, o Pedro Morais Soares, que uma das coisas que o Pedro percebeu imediatamente, até porque conhecia bastante bem a realidade, porque vinha desta casa, era que era preciso termos equipas mais rápidas de intervenção na identificação de quem era a pessoa, qual é o seu passado, o que é que a faz estar na rua, quais são as suas soluções.
Mas também encontramos casos em que a pessoa não quer qualquer ajuda. E torna-se mais complicado. Aqui em Cascais, eu nem gosto de dizer estas coisas, porque às vezes aqui em Cascais eu tenho sentido a coisa melhorar, mais controlada.
Mas há determinadas zonas onde se nota. Eu costumo dizer que aqui, aquilo que ainda vamos encontrando são casos pontuais, ou não concentrados, enquanto que há cidades no mundo onde são ruas inteiras, em alguns casos até bairros, ou localidades inteiras. Isto são situações que nós temos de estar muito atentos enquanto junta de freguesia, e continuarmos a fazer este trabalho de terreno.
O que é que acha que faz falta na freguesia?
Acho que faz falta esta política virada para quem cá reside. Esta oferta na qualidade e na melhoria da qualidade de vida para quem cá vive. Porque isso, até quando nós pensamos num turismo de qualidade, é cada vez mais isso que um turista procura. É a autenticidade das nossas pessoas, da nossa gastronomia, do nosso património.
Melhores escolas, melhores equipamentos e oferta de saúde. Fomos agraciados com um centro de saúde novo, a poucas centenas de metros daqui. Educação, saúde, agenda cultural, espaço público, comércio local forte, dinâmico e vivo, autêntico.
Se garantirmos tudo isto acho que as pessoas no final sentem-se melhores, mais seguras. Estes são os grandes pilares para nós desenvolvermos projetos de felicidade e sentirmo-nos bem na nossa terra.